Professores cerceados
Uma linha do tempo dos casos públicos de perseguição contra professores, instituições científicas e grupos de pesquisa no debate sobre sexo e gênero no Brasil
Um ambiente de crescente hostilidade tem minado o debate acadêmico sobre sexo e gênero no Brasil. O que antes era um campo de estudos consolidado e plural, com diferentes perspectivas teóricas, transformou-se em palco de intimidação, ameaças e assédio.
MATRIA - Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil
19 de novembro de 2025
O campo de pesquisas sobre sexo e gênero implodiu. A MATRIA recebe constantemente relatos de mulheres em crise com seu próprio trabalho, pressionadas a seguir abordagens teóricas de que discordam e sendo “corrigidas” em pareceres, bancas e congressos acadêmicos por não subscrever a um novo dogma: o pós-estruturalismo, a teoria queer e a inflação de demandas do transativismo.
O fato é que hoje professores, pesquisadores e até instituições científicas que apresentam divergências em relação a essa perspectiva teórica, questionam pautas transativistas ou simplesmente defendem o livre debate têm sido alvo de campanhas coordenadas por coletivos universitários, outros docentes e até mesmo políticos eleitos e sindicatos. Os casos envolvem desde formas de ação direta como abaixo-assinados, cartas abertas, protestos e boicotes até abertura de processos disciplinares, termos de ajustamento de conduta, registros de boletins de ocorrência, indiciamentos criminais e frequência compulsória a cursos sobre identidade de gênero.
A pressão por um controle estrito da linguagem, dos conceitos e das ações tem gerado um clima de medo e o simples ato de discutir teorias ou usar um pronome indesejado por alguém pode levar a acusações de transfobia, resultando em perseguição.
A linha do tempo “Professores Cerceados” expõe uma série de casos públicos que ilustram como posições alinhadas à ciência e à legislação vigente vêm sendo tratadas como discurso de ódio e como professores vêm sendo perseguidos por fazer seu trabalho.
O controle sobre a linguagem e os conceitos
A fiscalização da linguagem tornou-se um dos principais focos de conflito. Professores como Jan Alyne Prado (ex-UFBA, atualmente UFJF) e Valdiney Gouveia Veloso (UFPB) foram acusados de transfobia pelo uso de pronomes indesejados, enquanto Anaildo Baraçal (UNIRIO) enfrenta processo por se referir a um discente pelo nome que consta na chamada. O debate terminológico também é alvo: a filósofa Djamila Ribeiro (MIT) e a professora Mara Telles (UFMG) sofreram ataques e denúncias ao criticarem a substituição da palavra “mulher” pela expressão “pessoa que menstrua” - uma troca também rejeitada por 90% da população brasileira. Telles foi submetida a uma sindicância e foi pressionada pela UFMG a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), mas se recusou.
A fiscalização da reflexão teórica e da pesquisa científica
Além do controle da linguagem, a própria atividade acadêmica de pesquisar e debater teorias tem sido cerceada. Na Universidade Federal Fluminense (UFF), palestras críticas ao conceito de “criança trans” foram canceladas e um curso da professora Fabiana Jordão Martinez (UFCAT) sobre o conceito de gênero foi excluído da programação de um congresso.
O professor Richard Miskolci (UNIFESP) foi declarado “persona non grata” por organizações, acadêmicos e celebridades por promover discussões teóricas na sua área de expertise sobre “cisgeneridade” e “não binariedade”, e as instituições acadêmicas que o apoiaram, como o Núcleo Pagu (UNICAMP) e Fórum de Coordenadores de Programas de Pós-graduação em Sociologia e Ciências Sociais, também se tornaram alvo de ataques.
Recentemente, um documento publicado em parceria entre um núcleo de pesquisa universitário e duas ONGs admitiu com naturalidade o veto à discordância. O relatório “Fronteiras Borradas” mostra as estratégias utilizadas pelos autores e seus informantes para limitar a presença do que classificam pejorativamente como “feminismos essencialistas” na academia.
Um dos docentes universitários citados no documento, por exemplo, admite adotar uma tática para impedir a participação de docentes com visões divergentes da sua:
“A gente tinha que arrumar um jeito dessas feministas não entrarem em uma proposta de um curso [...] O jeito que a gente arrumou foi criar critérios de separação colocando perspectivas queer no título do curso. Quando a gente colocou isso, elas não se candidataram mais” [p. 40].
O documento também rotula as demandas legítimas de professores por liberdade de cátedra e liberdade de expressão como mero disfarce para “para posições antigênero ou abertamente transfóbicas” [p. 41], sem analisar seus argumentos ou seu mérito acadêmico e científico.
O fato de que alguns dos principais atores desse campo fazem essas confissões tão aberta e impunemente mostra a que nível já conseguiram hegemonizar o debate e corromper a ciência.
A caricatura que constroem para justificar esse estado de coisas em torno do “feminismo essencialista” dificilmente se sustenta quando se constata, por exemplo, que até mesmo autoras de vertente teórica construtivista ou pós-estruturalista têm sido alvo de difamação e cancelamento pelo transativismo. Ilustra esse estado de coisas a supressão do agradecimento a Richard Miskolci na versão brasileira da obra “Quem tem medo do gênero?”, de Judith Butler, em virtude das posições teóricas do professor, dissonantes da correntes hegemônica do campo das diferenças e sexualidades.
Consequências destrutivas
As consequências desse estado de coisas para os acadêmicos são severas e extrapolam o ambiente virtual. O professor Ricardo Cabral (UFRJ), acusado de transfobia e capacitismo, foi expulso do campus por estudantes e afastado de suas atividades. O professor Fabian Tadeu do Amaral (UFES) foi forçado a assinar um termo de ajustamento de conduta e a se submeter a um curso sobre identidade de gênero. A professora Jan Alyne Prado foi forçada a tirar uma licença médica e a pedir remoção para a UFJF em vista da agressividade dos alunos. O professor Rodrigo Peres (UFBA) foi alvo de campanha de cancelamento movida por sindicato e até por políticos eleitos, tendo palestra cancelada.
Opiniões sobre políticas públicas, como o de Leonardo Calid (U:VERSE) a respeito do boxe olímpico feminino, e de Valeska Zanello (UNB) e Marcia Tiburi (Universidade Paris 8) sobre a criminalização da misoginia geram campanhas de assédio. Pesquisadores com ampla e reconhecida produção na área de gênero e feminismo, como Luis Felipe Miguel (UNB), Richard Miskolci (UNIFESP) e Zanello (UNB) são desmoralizados e denunciados.
Esses casos ilustram a presente ameaça à liberdade de cátedra e ao avanço do conhecimento. A pluralidade, essencial ao ambiente acadêmico, deu lugar à perseguição e à polícia do pensamento, com graves consequências para o futuro da ciência e do debate público no Brasil.



Muito triste, preocupante e antidemocrática esses episódios.
Quem.for esperto nem.entra nesse lugar